
A data de 20 de março de 2026 marca um momento importante no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 no Brasil. Neste dia, expira oficialmente a patente da semaglutida, o princípio ativo por trás de medicamentos, como o Ozempic e o Wegovy, as famosas “canetas emagrecedoras”.
Para o nutricionista, essa mudança vai muito além de uma notícia econômica. Ela representa uma transformação profunda na acessibilidade dos pacientes ao tratamento farmacológico e, consequentemente, exige um novo posicionamento na prática clínica – que reconheça a mudança, mas não deixe de alertar os riscos e cuidados fundamentais diante desse novo cenário.
Além disso, sabemos que a possibilidade de maior acessibilidade também pode ocasionar uma busca desenfreada pelo medicamento, sem um acompanhamento médico e nutricional adequado, o que, por consequência, aumenta a possibilidade de riscos à saúde da população.
Por isso, como nutricionistas, é importante estarmos atentos a essas movimentações e entender quais são as próximas etapas dessa transformação.
Neste artigo, exploramos o que muda com o fim da exclusividade da Novo Nordisk, os prazos para a chegada dos genéricos e como você deve orientar seus pacientes neste novo cenário.
O fim da exclusividade da semaglutida
Embora a patente tenha caído, a chegada das versões mais baratas nas farmácias não é imediata. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já está analisando cerca de 15 pedidos de registro de medicamentos genéricos e similares contendo semaglutida.
Laboratórios nacionais, como EMS, Hypera Pharma, Cimed e Biomm, estão na corrida para lançar o “Ozempic brasileiro”. A expectativa técnica é que as primeiras decisões da Anvisa saiam até o final de abril, com as novas canetas chegando ao consumidor final até junho de 2026.

Fonte: Dados retirados da matéria disponibilizada pelo G1 e The Conversation.
O impacto no preço da semaglutida pode alavancar a democratização do tratamento?
Atualmente, o custo mensal do tratamento com semaglutida injetável no Brasil varia entre R$ 900 e R$ 1.100, o que representa uma barreira financeira significativa para grande parte da população.
Com a queda da patente, a legislação brasileira exige que o medicamento genérico seja, no mínimo, 35% mais barato que o de referência. Entretanto, sabe-se que nem todo medicamento será “genérico”. Um dos pontos em discussão é que a semaglutida é um medicamento biológico, ou seja, não é possível fazer cópias idênticas da substância.
Neste sentido, surgem os biossimilares. Consistem em versões bastante parecidas, porém exigem testes próprios que comprovem a segurança e eficácia do medicamento.
Além disso, especialistas do setor preveem que a concorrência possa levar a reduções ainda maiores a médio prazo, tornando o tratamento viável para uma fatia muito maior de pacientes.
Nesse contexto, com o possível aumento do acesso à semaglutida, espera-se um aumento do número de pacientes em terapia combinada (dieta + fármaco), exigindo do nutricionista um manejo ainda mais preciso dos efeitos colaterais, além de ajustes adequados na ingestão proteica para manutenção da massa magra e suporte à reeducação alimentar.
O papel estratégico do nutricionista no manejo da semaglutida
Com a facilitação do acesso, o risco de automedicação, sem dúvidas, tende a crescer. É aqui que o papel do nutricionista se torna ainda mais vital. Nesse sentido, é importante que o profissional se prepare para atender novos pacientes com um manejo cauteloso, focando na saúde integral e nos resultados a longo prazo:
- Realize uma avaliação nutricional abrangente: Antes de iniciar o tratamento, realize uma avaliação detalhada do estado nutricional do paciente, incluindo composição corporal, histórico alimentar, preferências e aversões, e exames bioquímicos. Isso permitirá identificar deficiências preexistentes e planejar uma intervenção personalizada.
- Promova uma educação nutricional contínua: Explique ao paciente que a semaglutida é uma ferramenta, não uma solução mágica. Enfatize a importância da reeducação alimentar, da escolha de alimentos nutritivos e da prática de exercício físico regular para otimizar os resultados, preservar a massa magra e evitar o reganho de peso após a interrupção do medicamento.
- Monitore e faça ajustes dietéticos, caso necessário: Acompanhe de perto a ingestão alimentar do paciente, ajustando o plano nutricional conforme a resposta ao medicamento e a tolerância. Pequenas refeições frequentes e ricas em proteínas podem ajudar a minimizar os efeitos colaterais gastrointestinais e preservar a massa muscular.
- Foque na qualidade nutricional: Com a redução do apetite, cada caloria importa. Oriente o paciente a priorizar alimentos de alta densidade nutricional, como proteínas magras, vegetais, frutas e grãos integrais, garantindo o aporte adequado de vitaminas e minerais.
- Destaque a necessidade de uma hidratação adequada: A semaglutida pode causar náuseas e vômitos em alguns pacientes, aumentando o risco de desidratação. Incentive a ingestão regular de líquidos, como água, chás e caldos, e monitore os sinais de desidratação.
- Enfatize que o tratamento faz parte de uma colaboração Interdisciplinar: Trabalhe em conjunto com o médico prescritor para ajustar a dose do medicamento, monitorar a saúde geral do paciente e garantir uma abordagem integrada e segura.
- Alerte sobre os riscos da automedicação: Utilize seu consultório e suas redes sociais para educar o público sobre os riscos da automedicação e a importância do acompanhamento profissional. Posicione-se como a fonte confiável de informação sobre o uso da semaglutida e a nutrição.
Riscos da automedicação
Em meio a essas mudanças, é fundamental que o nutricionista, como profissional da saúde, alerte os riscos existentes no uso da semaglutida sem acompanhamento profissional. Lembre-se alguns deles:
- Sarcopenia acelerada: A perda de peso rápida sem o aporte proteico adequado e treinamento de força resulta em perda severa de massa muscular.
- Deficiências nutricionais: A redução drástica do apetite pode levar o paciente a consumir volumes tão baixos de comida que não suprem as necessidades de vitaminas e minerais.
- Efeito Sanfona: Sem a reeducação alimentar estruturada pelo nutricionista, a interrupção do medicamento (seja por custo ou por atingir a meta) frequentemente resulta em reganho de peso.
Dica prática para o consultório
Foque na manutenção da massa magra e na qualidade da ingestão proteica. O medicamento é a ferramenta para o controle do apetite, mas a dieta é o que garante a sustentabilidade da saúde metabólica.
Riscos e cuidados: O perigo das falsificações da semaglutida
Um alerta importante para repassar aos pacientes: o período de transição entre a queda da patente e a chegada dos genéricos oficiais é terreno fértil para o mercado ilegal.
Relatos de canetas falsificadas e fórmulas manipuladas sem procedência garantida têm crescido. Oriente seus pacientes a adquirirem o medicamento apenas em farmácias estabelecidas e a desconfiarem de preços excessivamente baixos em sites não oficiais ou redes sociais. A segurança do paciente deve ser a prioridade absoluta.
Rápido resumo da semaglutida em 2026
A queda da patente da semaglutida em 2026 é uma oportunidade para que mais pessoas tenham acesso a um tratamento para a saúde metabólica.
Para o nutricionista, o desafio é se manter atualizado sobre as novas marcas que surgirão e reforçar a importância da terapia nutricional como o pilar central que sustenta os resultados farmacológicos.
Lembre-se: A semaglutida ganhou espaço no manejo da obesidade. Mas o tratamento continua sendo multifatorial. Nenhuma caneta emagrecedora substitui:
- acompanhamento nutricional
- mudança de comportamento
- estratégia individualizada
O cuidado com o paciente continua sendo construído no consultório com um profissional.
Referências
https://saude.abril.com.br/medicina/genericos-ozempic-fim-patente



