Síndrome dos ovários policísticos terá novo nome: o que muda na prática?

A síndrome dos ovários policísticos está passando por uma atualização importante na forma como é nomeada e compreendida pela comunidade científica. 

Recentemente, especialistas internacionais propuseram que a condição passe a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), uma mudança que busca representar melhor a complexidade do quadro clínico e seus impactos no organismo feminino.

A alteração da nomenclatura surgiu após um consenso internacional envolvendo dezenas de organizações médicas, pesquisadores e grupos de pacientes. O objetivo é ampliar a compreensão da síndrome para além dos ovários, reconhecendo seu envolvimento hormonal, metabólico e reprodutivo.

Embora o novo nome ainda esteja em fase de transição global, ele já levanta uma discussão importante. O que muda para mulheres diagnosticadas com síndrome dos ovários policísticos? A resposta envolve a forma de enxergar os sintomas e uma abordagem mais integrada do cuidado com a saúde feminina.

O que motivou a mudança do nome da síndrome dos ovários policísticos?

A proposta de mudança nasceu de uma insatisfação antiga com o termo “ovários policísticos”. Isso porque a expressão frequentemente gera interpretações equivocadas sobre a condição.

Nesse sentido, muitas mulheres e até profissionais de saúde acabam associando o diagnóstico à presença de cistos ovarianos patológicos. Contudo, na realidade, o ultrassom costuma mostrar múltiplos pequenos folículos imaturos, estruturas naturais do ovário que não correspondem a tumores ou cistos clássicos.

Além disso, o nome antigo acabava direcionando a atenção exclusivamente aos ovários, reduzindo a compreensão de uma condição que também envolve alterações hormonais e metabólicas importantes.

Segundo o consenso internacional, a nova nomenclatura busca representar melhor os diferentes sistemas afetados pela síndrome e reduzir confusões relacionadas ao diagnóstico.

Esse processo contou com a participação de 56 organizações internacionais, além da contribuição de milhares de profissionais de saúde e pacientes, reforçando a necessidade de uma terminologia mais precisa e alinhada às evidências científicas atuais.

O que significa Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina?

A proposta do novo nome não aconteceu por acaso. Ou seja, cada palavra da nova nomenclatura foi escolhida para refletir características importantes da condição.

1. O que significa “ovariana”?

O termo “ovariana” permanece porque os ovários continuam tendo um papel central no quadro clínico.

A disfunção ovulatória é um dos critérios diagnósticos da síndrome e costuma estar relacionada a ciclos menstruais irregulares e/ou à ausência de ovulação. Muitas mulheres procuram ajuda justamente devido às alterações menstruais ou dificuldade para engravidar.

Por isso, os ovários seguem como parte importante da síndrome e de seu diagnóstico, mas deixam de ser o único foco de atenção.

2. O que significa “metabólica”?

A inclusão da palavra “metabólica” chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado, que se refere ao impacto da síndrome no metabolismo.

A resistência à insulina, por exemplo, é uma alteração comum em mulheres com síndrome dos ovários policísticos e pode ocorrer tanto em pacientes com excesso de peso quanto naquelas com IMC considerado adequado. 

Nessa condição, as células do organismo respondem de forma menos eficiente à ação da insulina, levando o corpo a produzir quantidades maiores desse hormônio para manter os níveis de glicose sob controle.

Porém, além de suas repercussões metabólicas, o excesso de insulina pode estimular os ovários a produzirem mais androgênios, contribuindo para manifestações características da síndrome, como, por exemplo, acne, aumento de pelos e irregularidade menstrual.

Além disso, mulheres com a síndrome apresentam maior risco de desenvolver alterações cardiometabólicas, diabetes tipo 2, dislipidemias, aumento da circunferência abdominal e esteatose hepática, popularmente chamada de gordura no fígado.

Ao incorporar o termo metabólica, a proposta reconhece que o acompanhamento precisa considerar a saúde global da mulher e não apenas a função reprodutiva.

3. O que significa “poliendócrina”?

A palavra “poliendócrina” destaca o envolvimento de diferentes hormônios no desenvolvimento da síndrome.

Entre as alterações mais frequentes estão o excesso de androgênios, irregularidades nos hormônios relacionados à ovulação e mudanças na resposta à insulina. Esses desequilíbrios podem se manifestar de maneiras diferentes entre as pacientes.

Algumas mulheres apresentam ciclos menstruais muito espaçados, enquanto outras convivem com acne persistente, aumento de pelos corporais ou queda de cabelo. 

Além disso, também existem casos em que a principal dificuldade aparece na tentativa de engravidar, demonstrando o impacto da síndrome dos ovários policísticos na fertilidade feminina.

Nesse sentido, esse conjunto de manifestações ajuda a explicar por que a síndrome pode ter apresentações tão distintas de uma pessoa para outra.

O diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos muda com o novo nome?

Apesar da atualização da nomenclatura da síndrome dos ovários policísticos, os critérios diagnósticos permanecem os mesmos.

Atualmente, o diagnóstico costuma seguir os chamados critérios de Rotterdam. Em mulheres adultas, é necessário apresentar pelo menos dois dos seguintes fatores:

  • Irregularidade menstrual ou ausência de ovulação;
  • Sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de androgênios;
  • Presença de ovários policísticos ao ultrassom ou alterações específicas em marcadores hormonais, como o hormônio antimülleriano.

Em adolescentes, a investigação tende a ser mais criteriosa para evitar diagnósticos precipitados, já que irregularidades menstruais podem fazer parte da maturação hormonal dos primeiros anos após a menarca.

Ou seja, até então a mudança do nome não altera a forma de diagnosticar a síndrome, mas amplia a forma de interpretá-la.

Como a nova visão influencia o tratamento?

Primeiro, mais do que uma simples mudança de nome, a nova nomenclatura amplia a forma como a síndrome dos ovários policísticos é compreendida e a, especialmente,  forma de conduzir o cuidado.

Na prática, isso se reflete em um cuidado mais abrangente, que considera não apenas os sintomas reprodutivos, mas também os aspectos metabólicos e as necessidades individuais de cada paciente. 

Durante muitos anos, o manejo da síndrome dos ovários policísticos esteve fortemente centrado no controle dos sintomas ginecológicos, especialmente com o uso de anticoncepcionais hormonais.

Embora esses medicamentos continuem sendo úteis em alguns casos, o novo entendimento reforça a importância de olhar também para os fatores metabólicos, alimentares e comportamentais associados à condição.

Isso significa considerar questões como:

  • Qualidade da alimentação;
  • Prática regular de exercícios físicos;
  • Qualidade do sono;
  • Saúde emocional;
  • Monitoramento metabólico.

Portanto, a proposta é favorecer um cuidado mais amplo e individualizado, considerando os objetivos e sintomas de cada paciente.

Qual é o papel da alimentação no manejo da síndrome dos ovários policísticos?

A nutrição ocupa um espaço importante no acompanhamento da síndrome, especialmente quando existe resistência à insulina ou alterações metabólicas associadas.

Porém, isso não significa seguir dietas extremamente restritivas. O foco costuma estar em estratégias alimentares capazes de melhorar a sensibilidade à insulina e promover maior saciedade, favorecendo o equilíbrio metabólico.

Entre as abordagens alimentares mais estudadas estão o padrão mediterrâneo e estratégias com melhor controle do índice glicêmico, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados.

Em geral, algumas escolhas alimentares costumam ser incentivadas.

Alimentos ricos em fibras

As fibras ajudam a modular a resposta glicêmica das refeições e podem contribuir para maior saciedade.

Boas opções incluem:

  • Aveia;
  • Leguminosas, como feijão e lentilha;
  • Frutas com casca;
  • Vegetais.

Além disso, o consumo adequado de fibras parece beneficiar a microbiota intestinal, tema que vem recebendo atenção crescente nas pesquisas sobre saúde metabólica.

Proteínas distribuídas ao longo do dia

Proteínas podem contribuir para controle do apetite e manutenção da massa muscular, especialmente quando associadas à prática de exercícios físicos.

Ovos, peixes, carnes magras, laticínios e leguminosas, por exemplo, são fontes proteicas que podem fazer parte do planejamento alimentar, de acordo com as necessidades individuais.

Gorduras com perfil anti-inflamatório

Fontes de gorduras insaturadas também costumam fazer parte de uma alimentação equilibrada para mulheres com a síndrome.

Dessa forma, alimentos como o azeite de oliva extravirgem, castanhas, sementes e peixes ricos em ômega-3 podem contribuir para um padrão alimentar mais favorável ao metabolismo.

Por outro lado, o consumo excessivo de ultraprocessados e de alimentos ricos em gorduras saturadas tende a estar associado a piores indicadores metabólicos.

Vitaminas e minerais podem ajudar?

Deficiências nutricionais podem coexistir com a síndrome dos ovários policísticos e influenciar alguns sintomas, embora a suplementação deva sempre ser individualizada.

A vitamina D, por exemplo, tem sido investigada por sua possível relação com metabolismo glicêmico e função ovariana. Outros nutrientes, como magnésio, zinco e ômega-3 também aparecem em estudos relacionados à inflamação e sensibilidade à insulina.

Ainda assim, é importante evitar a ideia de suplementos como solução universal.

Dessa forma, uma avaliação nutricional individual continua sendo essencial para identificar necessidades específicas, interpretar exames laboratoriais e definir estratégias adequadas.

Existe relação entre síndrome dos ovários policísticos e saúde emocional?

Sim! A literatura científica mostra que mulheres com a síndrome apresentam maior frequência de sintomas de ansiedade e depressão quando comparadas à população geral. E isso pode acontecer por diferentes motivos.

As alterações hormonais, mudanças corporais, dificuldade para engravidar e impactos na autoestima, por exemplo, frequentemente influenciam a saúde emocional.

Além disso, sinais como acne persistente, aumento de pelos ou queda capilar podem gerar sofrimento psicológico e afetar relações sociais.

Por esse motivo, o acompanhamento multiprofissional pode incluir apoio psicológico, especialmente quando a condição interfere na qualidade de vida da paciente.

O que entendemos sobre o novo nome da síndrome dos ovários policísticos?

A proposta de mudança para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) representa uma tentativa de ampliar o entendimento sobre uma condição que vai além dos ovários.

Embora o diagnóstico continue seguindo os mesmos critérios, a nova nomenclatura ajuda a destacar aspectos hormonais e metabólicos que fazem parte do quadro clínico e influenciam diretamente a saúde da mulher.

Em poucas palavras, alguns pontos merecem destaque:

  • Os critérios diagnósticos permanecem os mesmos;
  • A condição passa a ser compreendida de forma mais ampla;
  • Metabolismo, hormônios e saúde reprodutiva precisam ser observados em conjunto;
  • Alimentação e estilo de vida seguem como pilares importantes no tratamento da condição. 

Por fim, para mulheres que convivem com a síndrome dos ovários policísticos, a principal mensagem permanece clara no que envolve acompanhamento individualizado e alimentação adequada. Além disso, o cuidado contínuo segue sendo fundamental para o manejo dos sintomas e promoção da saúde a longo prazo.

Referências:

TEEDE, Helena J; KHOMAMI, Mahnaz Bahri ; MORMAN, Rachel; et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet, 2026. 

VESPA, Talyta. Síndrome dos ovários policísticos muda de nome após consenso global com 56 organizações | G1. G1. 

SAEED, Aya A. Muhammed ; NOREEN, Sobia; AWLQADR, Farhang H; et al. Nutritional and herbal interventions for polycystic ovary syndrome (PCOS): a comprehensive review of dietary approaches, macronutrient impact, and herbal medicine in management. Journal of Health Population and Nutrition, v. 44, n. 1, 2025. 

JAIN, Apoorva; NERAVI, Asha; SATHYASHEELAPPA, Sunil Kumar Katti; et al. Nutritional Management of Polycystic Ovary Syndrome (PCOS)- A Review. Biomedical and Pharmacology Journal, v. 18, n. 1, p. 527–534, 2025.

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