Comportamento alimentar infantil

Como a criança aprende a comer e desenvolve seu comportamento em relação a comida? Estudos mostram que o comportamento alimentar é determinado pela família e por interações psicossociais e culturais da criança. Os pais então são os primeiros educadores nutricionais das crianças.

Segundo Ramos e Stein, 2000, hábitos são atos, usos e costumes, ou um padrão de reação adquirido por repetição. O hábito alimentar é formado pelo que costumeiramente se come. Os adultos têm capacidade de entender que precisam comer não só o que gostam, mas a crianças em fase pré-escolar (entre 3 e 6 anos) formam o hábito alimentar apenas pelas suas preferências.

E como então os pais, cuidadores e a família podem ensinar e facilitar a formação dos hábitos alimentares da criança? Tudo começa na boa condução da introdução alimentar, seguida de boas experiências alimentares. A criança precisa ter um ambiente psicossocial favorável, sendo estimulada a perceber as sensações de sabores, de fome, de saciedade e ter uma boa socialização com a comida (ambiente agradável, ter acesso a alimentos saudáveis variados, ser inserida nas refeições da família).

A criança não come apenas por fome, mas também pela sugestão do ambiente e do contexto social – festinhas, estar com amigos, reuniões de família, alimentos que vê na televisão. Na fase pré-escolar observa-se elevado consumo de carboidrato, açúcar, gordura e sal e consumo insuficiente de vegetais e frutas. E para tentar mudar esse quadro, os pais e cuidadores muitas vezes pressionam e coagem a criança a comer determinado alimento, gerando um contexto negativo em relação a alimentos saudáveis e levando a criança a não gostar ou até detestar o que foi oferecido. É preciso que a família observe se as celebrações são feitas com as comidas não saudáveis. Geralmente, as comidas saudáveis são oferecidas como castigo e há promessas de “prêmios” após a ingestão delas. Imaginem o que a criança aprende com essa situação…

O encorajamento para comer também costuma atrapalhar o apetite e até o peso da criança. Um estudo sueco observou que as crianças que recebiam verbalizações na hora da refeição, como “coma mais”, “coma tudo”, “agora dê mais duas garfadas”, “anda logo”, “não coma com a mão”, “você só vai sair da mesa/assistir desenho/ganhar a sobremesa se comer tudo” apresentavam peso acima da média. O estudo observou também que os adultos serviam quantidade maior que a criança precisava, preparavam o prato fora da visão e sem a interação da criança e não forneciam modelo de comportamento alimentar.

Observou-se que as crianças que recebem alto grau de controle externo dos pais perdem a capacidade de perceber sensações de fome e saciedade, resultando em falha na autorregulação. Além disso, o estudo mostra que pais que fazem muitas intervenções de encorajamento estão mais preocupados com a quantidade a ser ingerida e acabam perdendo a oportunidade de desenvolver hábitos saudáveis.

O sabor dos alimentos também influencia o aprendizado do comer. Estudos feitos com humanos e animais mostram que associando sabores doces a um sabor desconhecido, aumenta a aceitação do novo alimento. A sensibilidade ao sabor doce já aparece na fase pré-natal, então é realmente uma preferência inata na infância.

Um estudo feito com crianças de 49 meses considerou a forma de aprendizagem nutriente-sabor. Cada criança recebeu uma bebida com alta taxa calórica e outra com baixo teor calórico. Cada bebida tinha sabores novos para as crianças e foram oferecidos quatro dias por semana durante cinco semanas, para gerar condicionamento. Os resultados mostraram que o condicionamento da preferência se deu pelo efeito após ingestão. As crianças preferiram as bebidas de alta taxa calórica (que tinham mais carboidratos).

Nesse ponto, é válido refletirmos: será que as crianças preferem alimentos com mais alta taxa calórica (como os doces e gorduras) por que isso gera mais satisfação, menos tempo comendo e portanto, menor risco de sentir fome? Assim como os pequenos animais na natureza, seria um estímulo inato ou fisiológico de sobrevivência?

Estudos e práticas têm demonstrado que as crianças preferem alimentos mais calóricos (talvez pela sensação de saciedade) e são também influenciadas pelo sabor, cheiro e textura (cremosa e fofa). Uma saída então é associar os sabores na oferta dos novos alimentos e deixar sempre um “alimento seguro” para que a criança aprenda através de um contexto positivo, com interações sabor-sabor e sabor-nutriente e em exposições repetidas, já que precisam se familiarizar com as novidades.

Priscila Walker

CRN: 3377 e 165\S

Facebook: Priscila Walker – nutricionista

Instagram: @priscilawalkernutri

*O texto é de inteira responsabilidade do(a) autor(a) e não reflete a opinião da empresa. O blog é aberto caso outro(a) profissional queira escrever um contraponto.

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